não sou politicamente correto, nem defendo animais

Ainda bem que alguém veio ler essas coisas aqui. Por favor, sacuda a poeira e fique à vontade. Se puder, deixe vossa opinião ao final. Muito obrigado pela atenção.

6.4.09

BILHETES

Enfim Faizulim acertara. Não se sabe exatamente qual fora sua melhor obra, ninguém nunca sabe exatamente o que é melhor mesmo. “Melhor” é todo o tipo de noção de que temos que nos livrar para sermos felizes. Longe de ser feliz, entretanto, o jovem autor era agora ao menos reconhecido.

            Tudo começara quando leu aquele fatídico bilhete, instigante e moderado em termos de suspense, contudo com uma capacidade de expressão maravilhosa. Era toda a inspiração de que precisara para escrever “Pouco, Pitoresco e Confuso”, livro seu onde fazia uma reflexão sobre uma teoria da personalidade humana nos termos de ser cada exemplar desta raça pouco, atraído por coisas pitorescas, e tendo em suas conclusões lógicas uma confusão mental totalmente estranha à sua própria condição. O livro era um sucesso e Faizulim pensava que finalmente atingira um nível diferente de produção artística.

            As pessoas o reconheciam, e pediam que ele fizesse dedicatórias dos exemplares que por acaso traziam consigo, a editora vez ou outra ligava instando ele a participar de eventos de divulgação do livro. Nestes eventos tudo era igualmente gratificante, pois as pessoas perguntavam coisas interessantes, que o impulsionavam a refletir sobre assuntos. Adorava partilhar todo tipo de conhecimento e ia descobrindo aos poucos que só era um escritor mesmo agora. Agora que as pessoas o liam, agora que alguém tirava suas palavras latentes do silêncio agonizante das páginas frias, trazendo tudo para o cotidiano quente a qual suas palavras, por sua própria natureza, se destinavam. Era tudo maravilhoso com relação a sua vida profissional, se é que se podia chamá-lo de profissional.

            Contudo, ainda havia uma pessoa na base de tal profissional. E esta pessoa era quase que irreconciliável. Sei que a maioria das pessoas deve ter imaginado que ele padecia do sofrimento da rejeição de Sofia. Seu melhor amigo àquela época havia se tornado Rafael, e este pensava que a maior causa de tristeza de Faizulim era Sofia mesmo.

- Sei que é difícil, Fazo. Mas você tem que pensar um pouco sobre arranjar outra mulher.

- Que é que você tá falando?

- Essa estória sua com essa sua ex-namorada me preocupa um pouco. – falou cuidadosamente, Rafael.

- Não se preocupe. Está tudo mais ou menos certo. – Sentenciou friamente, enquanto tomava mais um gole de cerveja, Faizulim.

            Não era. Não era nada daquilo. Não estava nem perto. Sofia era um fantasma mensal, igual à conta de luz. Faizulim era um sujeito que não se preocupava muito com a própria vida, era como se ele se importasse mais com suas idéias que com seus sentimentos. Só quando lembrava que era de carne e osso é que doía, e por isso mesmo cada vez mais queria se sentir menos carnudo. A fama relativa ajudava, e ele começava a elaborar algo para justificar sua existência, algo como uma devoção quase religiosa à arte, que na verdade era mais como uma devoção a fugir do que lhe afligia. Não se pode culpá-lo, afinal fugir é sempre melhor que resolver realmente.

            Ficara mais vaidoso também, porque as mulheres começavam a reparar nele, devido ao pequeno sucesso que fazia, e ele se tornava cada vez mais hábil em lidar com aquelas que se aproximavam dele. No começo fora mais difícil. Coisas como:

- Não acredito! É você, não é? – dizia a moça bonita, com um olhar admirado.

- Bem… Isso é que é uma pergunta complicada, hein? – respondia ele com falsa humildade, querendo não ser cafajeste só porque a moça era bonita.

- Cara! Você é o FAIZULIM!!! – pela entonação que seu nome produzia nas voses, Faizulim reconhecia que esses gritinhos ficavam ainda mais estridentes.

- É. Pois é.

- Cara! Adoro todos os seus livros!!!

- Sério? – Ele se animava. – Qual deles você mais gostou? – Ele dizia, interessado, na expectativa de que ela dissesse que o melhor houvera sido a peça “Fogo no Egito”.

- P.P.C. É claro!!!! – Aquele “claro” era algo como perfurar sua alma de artista. O fato de terem reduzido seu “Pouco, Pitoresco e Confuso” a uma sigla era igualmente ignóbil para ele.

- É verdade… Mas… Qual outro que você gostou? – Pelo menos ela poderia ter lido “O Sanduíche de Mortadela de Cada Um”, já seria alguma coisa.

- …

            O silêncio ainda durava mais um franzir de sobrancelhas dele, até que os dois desatassem a rir, convidados, logicamente, pelo riso dele, primeiro, reconhecendo que só havia um livro bom mesmo em seguida.

- Caramba! Você que é o Faizulim? – dizia outra mulher bonita.

- É. Pois é.

- Você podia autografar este aqui pra mim? Meu nome é Suzana – ela vinha com um livro debaixo do braço, e carregava no charme para ver se ele notava a insinuação.

- Claro! – Ele abria o livro todo “felizão” e, quando abria… Opa! O livro já estava autografado por ele mesmo, com dedicatória e tudo. – Olha… É que eu acho que já fiz até uma dedicatória nesse livro… E acho que foi… Para… Armando Flávio? – Ele olhou para ela com um olhar estranho.

- Ah, tá. – disse ela num muxoxo, como quem diz “ele não se toca”, depois catando o livro e se retirando.

            Só com o tempo foi aprendendo que, conforme seu nome aparecia mais, mais as pessoas sabiam menos o que ele realmente escrevera. Seu nome ia se tornando jargão, e isso era bom para os negócios, só que as pessoas cada vez menos liam realmente. As discussões iam se tornando cada vez mais superficiais, e cada vez mais ele percebia que comentavam seu livro sem nem saber do que se tratava, com expressões vagas, considerações óbvias demais. Entretanto, ele realmente não se importava, até se divertia com isso. Não era também isso que o incomodava. Mas algo o incomodava.

            Apesar disso ele ia se acostumando com todas essas novidades, aprendendo a administrar essas situações, convivendo melhor com este mundo. Uma coisa era certa: sua vaidade crescera em uma profusão tal que passara a concentrar parte de sua personalidade. Agora se vestia bem. Não usava roupas nem apertadas nem folgadas demais, porque ambas deixavam sua aparência magricela evidenciada. Preferia linhas longitudinais em suas camisas, usava um gel penteando o cabelo para um lado, e aparava o cavanhaque eximiamente, dando um ar todo elegante a seu estilo. Também não se preocupava com o fato de estar mais vaidoso, parecia quase inconsciente neste aspecto. O que realmente o incomodava eram os bilhetes.

            Aquilo já durava quase um ano: toda sexta-feira à tarde ele ia até o mesmo banco de praça, e ficava inclusive ansioso, esperando que chegasse este dia, sedento e imaginando o que viria desta vez, era como se fosse dependente de uma substância que estava contida em um papel largado naquele banco traiçoeiro. Meteu a mão e viu algo como uma carta. Nem quis saber de ler o que estava escrito, e foi logo rasgando o envelope, apressadamente pegando o papel que estava dentro. Leu… Passou um tempinho e depois releu. O final dizia algo como:

Os fantasmas de Iarne enchiam toda a mansão

Enquanto Hiberne se escondia atrás de uma estante

Apavorado, com Erich e Irlich

a brincar com palhaços mortos

na sala de estar

com o mogno liquefazendo

em chocolate meio amargo

e Ariuly acima da escada

que começava a se desfazer…”

            Faizulim apertou o papel contra o peito, depois soltou um suspiro, meio aliviado, meio triste, depois imaginou o que aconteceria a Ariuly, se Iarne conseguiria salvá-la, se, enfim, tudo sairia bem. Era tão incômodo tudo aquilo para ele. Afinal de contas, ele também era um escritor, e se julgava quase um filósofo. Por que, então, uma estória imaginária, com personagens em conflitos infindáveis, sempre com um momento de tensão reprimido no fim de cada texto daquele, ainda capturava sua atenção? Por que aquela brincadeira de “amanhã eu te conto” ainda surtia efeito?

            “Sua obra era muito mais elevada que aquela”, pensava ele. Seus textos eram muito mais completos, e não se utilizavam daquele recurso. Por que continuaria a ler aquilo novamente? Isso o preocupava imensamente. Precisava expressar aquilo, ou então… seu rosto se clareou por um momento.

            Do outro lado da praça, uma sombra anotava as reações de Faizulim à leitura do texto em um bloquinho de notas.       

criado por Luiz de Almeida Neto    22:08 — Arquivado em: FAIZULIM

24.3.09

… E CONFUSO.

            Rafael foi a primeira pessoa que avistou quando retornou de sua letargia, ainda sentado no mesmo banco da lanchonete “Recanto do Sabor”,e foi logo ouvindo dessas:

- Bora! Pra dentro! O cara tá atirando lá fora! Sai daí!

            Não sabia muito bem se o rapaz realmente continuava a atirar do lado de fora, “seu momento” pode ter durado algo como cinco minutos, ou algo como cinco segundos, impossível mensurar emoções em tempo real. De qualquer modo agora era questão de não impor a emoção a seu labor, precisava escrever, contar ao mundo o que tinha visto, trazer “sua” contribuição, e finalmente colher seus próprios despojos.

            Antes de conquistar o mundo era preciso terminar o almoço. Rafael o convidou para tomar tal refeição em sua mesa, porque reparou, no meio da confusão, que Faizulim comia sozinho, pensativo, e quis lhe animar. Começaram a comer e as expectativas eram evidentes: cara comendo sozinho = cara chato; obra de piedade, o cara quase levou um tiro, vai começar a falar sem parar = falar besteira demais. Era assim que Rafael esperava que se sucedesse a conversa.

            Que conversa? Faizulim aceitou o convite, sentou, e continuou a comer exatamente como fazia ao balcão: calado e pensativo. Era um pouco frustrante para Rafael, mas sem problema, as expectativas eram agora outras, não menos evidentes: cara chato, só que taciturno; não vai falar nada = sarcástico, irônico; sujeito mal-educado.

            Começou então a puxar conversa, mais por curiosidade mesmo, e percebeu que o convidado não era também de todo mal-educado, e até divertido em alguns momentos, se bem que mais atrapalhado que propriamente engraçado, e, portanto, dava para dar uma risada às suas custas e ele nem parecia contrariado com isso, parecia até se divertir também às vezes com seu próprio jeito torto, todo desengonçado.

            Ao fim do almoço, Rafael lhe entregou um cartão e disse que ele o procurasse depois, para uma “cervejinha”, no fim de semana. E foi assim, depois de quinze dias, que Faizulim ligou e os dois foram tomar umas cervejas e acabaram por combinar uma outra vez, para tomar as que sobraram, obviamente com um pé atrás, já que haviam se conhecido em uma situação muito estranha. Não era exatamente um segredo entre os dois a desconfiança que um tinha para com o outro, contudo sabiam ir devagar, sem querer ser amigos, apenas uma companhia para tomar uma cerveja sem encher muito o saco um do outro.

            E foram desse jeito os próximos seis meses da vida de Faizulim: trabalhando no cartório dois expedientes, escrevendo incessantemente noite adentro, e tomando uma “cervejinha”, para aliviar um pouco o peso do cotidiano, no fim de semana, geralmente aos sábados, pois aos domingos a ressaca atrapalharia o desempenho no trabalho, em plena segunda-feira. Ao cabo de seis meses, finalizou o que poderia ser chamado de seu primeiro livro, denominado de “O Sanduíche de Mortadela de Cada Um”, e quem dera cada um tivesse um pra comer todo dia mesmo. Não foi lá exatamente uma glória seu lançamento, nem tampouco a crítica, muito menos o público, só que desta vez a revolta não o atingiu. Não por causa disso…

            Era uma tarde de sexta após o expediente, em frente ao cartório.

Sofia estava linda em um vestido branco, salpicado de umas florezinhas amarelas, e com um chapéu grande, cor marrom clara, com óculos escuros um pouco grandes demais, só que tudo perfazendo o conjunto que dava algo como um imenso clichê, e ela sempre se vestira como um clichê, como as mocinhas de filmes antigos, em seus finais de felicidade. Isso em seus momentos de folga, contrastando brutalmente com um visual sólido e duro da hora do trabalho, porém ele nunca a repreendera. Até gostava de toda essa brincadeira que a roupa dela sugeria, o jeito como vestia aqueles vestidos brancos e tal. Uma felicidade irradiante em seu rosto. Irradiante? Sim. Não. Não podia ser. Era. O triste de perceber as coisas que acontecem ao seu redor é quando elas estão acontecendo com você mesmo. A sensação é terrível, e no fim?

            Bem, no fim o sujeito consegue se convencer de que não é o que ele próprio anda pensando. Engana a si mesmo, e é o único capaz disso. Para quê toda aquela felicidade? Não estaria mais a sofrer pelo rompimento deles? Ora, claro que não. Essa estória já tinha muitos anos cortados no meio. De todo jeito, a pergunta óbvia não consentia de ser verbalizada em sua própria mente: “Quem estaria pondo aquele sorriso em seu rosto?”, e a resposta não demorou.

            O sujeito era todo galante, com um topete cheio de gel, um cabelo que devia ser loiro, meio que cheirando a cocker spaniel , com uma camisa de marinheiro e uma calça branca no melhor estilo “comodoro”, a barba toda bem feita e o rosto todo impecável. Tinha uma barriga um pouco saliente por baixo daquele traje de homem do mar, contudo as feições eram afiladas, e o sorriso farto. Por Deus! Ele também sorria enfim.

            Faizulim não tinha nada a ver com aquilo. Andava com uma camisa de botões toda suja de tinta, dos vários acidentes que sofria com a própria caneta durante o dia, a calça era velha e gasta, e o sapato estava tão carente de uma graxa que ele sentia até vergonha de não resolver tal problema. Era franzino, emagrecido por vida, com o cabelo um tanto assanhado e de um preto retinto que até assustava do contraste com a pele branca de seu rosto. Só não assustava mais que o cavanhaque protuberante que dominava o queixo dele, com uma displicência tão grave com a própria aparência que fazia pensar até que só se vestia para não chocar os transeuntes, podendo estar, para ele mesmo, de qualquer jeito.

            Assistia inerte ao passeio de namorados, em plena luz do dia, embasbacado. Tomou conta dele próprio para não ir até lá. Parecia um cavalo, dentro de si, querendo ir lá falar, e ele segurando a correia como um domador habilidoso, contendo a si mesmo. Faria o quê? Chegaria lá, diria algo inteligente para impressioná-la e para não ficar “por baixo” e depois se retiraria triunfante? Ridículo! Foi exatamente o que ele fez.

- E então? E entããão, mocinha? – ele falou a primeira vez, ela não escutou. Da segunda vez saiu alto demais, quase um grito.

- Oii! Tudo bom, Fazo? Este aqui é o Linhares. Trabalha comigo.

- Eu sei bem quem ele é. – Soou um pouco mais impertinente do que ele próprio planejara.

- Hã?

- Nada não. Prazer em conhecê-lo, Linhares. Olha… Estou um pouco apressado – todo mundo que está apressado é um pouco mais importante, lei da oferta e da procura do tempo do próximo – e preciso ir agora. Boa tarde pra vocês.

- Tá. Boa tarde… E… Ó! Foi… Foi bom te ver, certo?

- Certo. – Um riso todo bobo no rosto. Sai daí! Fechar a cara, de um modo sério agora – Até outro dia.

            Cumprimentaram-se e se dispersaram. Quando sentou de volta em um banco, meio aliviado, de frente para o cartório, Faizulim não deixou de perceber uma carta, largada ali. Pegou instintivamente, depois se lembrou que não deveria abrir. Que era coisa alheia. Depois pensou em abrir e só verificar para quem era…

Por outro lado o caminho dá uma volta e soçobra

Enquanto os pombos comem os milhos fatigados

Nos ombros de um velho mordomo impassível

Com a casa a pegar fogo…”…

criado por Luiz de Almeida Neto    9:26 — Arquivado em: FAIZULIM

19.3.09

“O dia em que Otacílio pediu demissão de si mesmo” - Autor: Bruno D’Almeida

Autor: Bruno D’Almeida.

 

“Ele passa estalando os dedos solenemente pela sala dos professores e fixa um texto no mural de aulas:

Esta não é uma carta de despedida. Nem mesmo quem parte definitivamente e vai pro céu brincar de nuvem deixa de morar no coração da família. Por isso mesmo que deixo de coexistir ao lado de pessoas que me são tão caras, porém que nunca estarão ausentes, no mínimo porque sei que levarei comigo um pedaço de cada uma delas. Este é o verdadeiro significado da palavra presença: não necessariamente tudo que está ao nosso lado, mas tudo que habita em nós.

 Eu, como tantas formigas neste açucareiro, tenho meus sonhos. Sou um escritor em tempo integral, e todas as atividades que faço derivam da exaustiva e prazerosa construção de palavras e de imagens. Saio para dar asas a este sonho: não quero mais apenas ler e corrigir os textos dos outros, nem ensinar aos outros uma língua que não está mais nos manuais de gramática. Meu maior desejo, inclusive, é o de sempre subvertê-la. Meus próprios textos me pediram, por favor, humildemente, e com todas as recomendações, de que não fossem mais silenciados. Gritem, meus filhos polissêmicos, que este mundo não é surdo. Alguém vai ouvir e me dar uma oportunidade.

 Por isso a partir de agora quem quiser ver meus trabalhos e compartilhar esta delicadeza sutil de dizer o indizível, pode ler minhas crônicas, contos, poemas, ensaios, roteiros, filmes, comerciais de margarina, bulas de remédio, tudo que poder virar matéria, luz, câmera, ilusão, pensamento e sentimento. Estou me colocando para o mundo enquanto escritor e suas milhares de faces escondidas e escancaradas: cronista, redator publicitário, jornalista, roteirista, diretor  e milhares de etecéteras.

 Podem me encontrar discorrendo sobre os milhares de benefícios em acordar tarde, vejam meus filmes sobre a redescoberta da lua em um novo empreendimento imobiliário, entreguem meus poemas a um amor verdadeiro com um chocolate meio amargo. Leiam, sintam, emocionem-se, gritem, participem da minha vida com o que posso me dar de melhor, esta grande incapacidade de deixar de dizer o que sinto e penso sobre todas as coisas.

 Não estou me despedindo de vocês. Estou saindo daqui ciente do que me espera lá fora, nesta nova jornada incerta de um mundo de finais felizes e de balas perdidas. Eu precisava cometer este erro grave, mas tão grave, em ser professor durante tantos anos, atividade que sempre fiz com tanta dedicação, para mudar de idéia com relação ao meu futuro e não errar no principal: não serei eu mesmo o maior erro da minha vida. Vou a procura de acertos e o principal deles é que não quero mais ser um sujeito passivo diante das palavras.

E foi exatamente com esse texto que aquele querido gordinho, com seus quase trinta anos de escola, publicou sua primeira crônica no jornal A Luneta, o mais prestigiado da região de Ribeira do Pombal.”                                                                           

                                                                                          Bruno D´Almeida

OBS.: Bruno D’Almeida é um excelente autor (e não é meu parente, apesar do sobrenome, é que ele escreve bem mesmo), que também está presente lá no pessoal do “Duelos Literários”. Não raro chama a atenção pelos bons textos. Tá aí agora o link, ao lado, pra quem quiser apreciar um pouco mais de seus escritos.

criado por Luiz de Almeida Neto    22:35 — Arquivado em: Sem categoria

13.3.09

NOITE DA REDENÇÃO

Minha terra natal, o Rei dos Céus         

de novo carregando a sua cruz

toda te percorreu, cansado, maltrapilho,

e deu-te a sua bênção.                                                             

                                                        (Tiútchev)

 

Não se podia dizer que Coriolano fosse um sujeito supersticioso. Contudo, às vezes, a sorte não depende da nossa vontade, ela age por si só, instilando seu veneno pelas ruas e espalhando seu desespero da Catedral ao Seminário. É por isso que é bom sempre crer, mesmo contra todas as evidências, porque a sorte vai contra todas as probabilidades que norteiam nossa “vã filosofia”.

Assim chegamos à sexta-feira, 13 de março de 2009, noite funesta por natureza, solta e cheia de pontas para serem atadas com gosto pelo acaso. A mãe dele ainda avisou, insistiu e tudo mais. Não teve jeito, quis ver a namorada e saiu inadvertidamente, contra todas as previsões da mãe preta das tetas grandes que sempre fazia agouros muito ruins com um “Uh!” estranho, na voz grave. E foi embora na noite curiosa e cheia de atalhos.

Lá ia Coriolano na altura do Bar do Silva, quando um gato preto, ao vê-lo, desistiu e se escondeu na esquina. Mal sinal. Não quis nem passar no caminho do rapaz. Ao passar pela loja de ferragens ainda parou para prestar atenção, lembrou-se que tinha que comprar algo que a mãe o pedira mais cedo. De todo jeito, agora não haveria jeito, já que a loja estava fechada. Dobrou a esquina, não sem antes perceber um barulho estranho. Tudo bem, não era nada demais.

Agora já era coisa de poucos metros até chegar à casa da namorada. Pensou em parar na venda de Seu Gonçalves pra comprar chocolate. Ela ia adorar. Parou. Cadelas que dominam cães. E lá chegando, pediu uma caixa de chocolate. Ah! Nunca era fácil comprar daquele velho matreiro, que sempre botava o preço lá em cima, só pra ter o prazer de pechinchar.

- Logo, Seu Gonçalves! Tô com pressa! A mulher tá esperando.

- Eu já “le” disse que custa R$5,00.

- Puta que pariu! Véi doido da porra!

- Ei! Né assim não viu!

- O preço é R$3,50. O senhor sabe.

- Aqui custa 5. Se quiser vá na bar da lado. Eu esqueci de dizer, mas Seu Gonçalves era estrangeiro, e como todos os outros tinha dificuldades com esse sincretismo louco que fazemos com o gênero de nossas palavras.

- Que badalado? Que danado é badalado agora? Que merda que você tá falando agora hein?

- Bar da lado! Bar – Da – Lado!!! – E apontava veementemente pro estabelecimento ao lado, enquanto gritava.

- Você tá ficando é doido! Nunca ouvi falar do cara mandar comprar chocolate em bar. Faz o preço, Seu Gonçalves! Nunca vi!!!

- Tá bom! Você anda muito esquentado, filhinha!

- Você tá falando com quem? Comigo?

- É sim!

- Tá bom! Eu só quero o chocolate mesmo.

E depois de tanta discussão conseguiu o chocolate. Ao sair da vendinha ainda passou por baixo de uma escada. Passou tranquilo e assobiando. Quando ele já ia distante, a escada caiu com o sujeito que colocava um letreiro na venda de Seu Gonçalves. Ainda caiu xingando, deixando o velho dono da venda irado com esse comportamento de nossos nacionais, ou “nativos”, como ele preferia nos chamar.

Coriolano já estava quase na porta da casa da namorada quando viu uma moça bonita, passando, assobiando também. Ficou imaginando se ela também não estaria indo encontrar o namorado. Que situação linda. Uma moça feliz da vida, com um sorriso no rosto, sintoma de que alguém ia se dar bem hoje à noite. Um sorriso no rosto de uma mulher é a coisa mais rara de ser vista, contudo é sempre prenúncio de algo maravilhoso que está para acontecer.

Entrou de uma vez, e deu um beijo carinhoso na namorada, depois comentou da moça que vira havia pouco. Ela ficou logo cismada, pensou logo que ele estava olhando pra bunda dela, fechou logo a cara, sintoma de que alguém ia se dar muito mal hoje à noite.

Alice vinha pela rua com um sorriso lindo, de quem realmente ia encontrar alguém, (sempre há alguém quando estamos realmente felizes) de quem iluminaria o mundo inteiro. Passando pela venda de Seu Gonçalves, deu, displicentemente, um “boa noite” radiante, e passou andando tão ligeiro que nem ligou de esperar o homem responder.

Lá de dentro, Seu Gonçalves fez carreira pra responder o “boa noite” da moça, que era sempre tão educada. Quando se escorou no balcão, balcão novinho, todo de vidro, este espatifou-se, deixando o velho homem ao chão, em meio a um monte de estilhaços de vidro, a xingar a própria sorte.

Passou displicente, como só ela podia ser aquela noite, pela loja de ferragens, e teve ainda tempo de ver um sujeito a lavar mão, com uma ferida horrenda. Ficou um tanto espanta, não tanto que perdesse aquele sorriso precioso que ela carregava com a imponência de uma mala cheia de dinheiro.

Virando a esquina, o gato preto se escondeu novamente, rapidamente. Quando já estava em seu esconderijo, longe da percepção da moça, Cipriano (esse era o nome do gato) ainda teve tempo de pensar: “Ufa! Essa foi por pouco!”, enquanto ronronava na perna da velha preta de tetas grandes.

Enfim, chegou Alice ao local marcado. E esperou. Esperou e esperou mais um pouco, “ele não vem”, pensou, o sorriso sumia aos poucos e dava uma pena em quem via aquilo, como se o mundo todo fizesse força para ele chegar. O sorrisinho já ia miúdo, e dava uma apreensão, uma agonia no peito de quem via, uma vontade de ver um final feliz, um desejo de ver felicidade, coisa que vale ouro e não se lapida.

A praça inteira se iluminou quando Lutério chegou. Não sei como alguém com um nome desses pode fazer alguém feliz, mas não restava dúvida. O sorriso estava ali, de volta, patente na face linda e iluminada de Alice, ainda que a preço de muitos tombos, muitos balcões quebrados, muitas brigas de namorados, muitas quedas de escadas, muitos pregos a entrarem na mão de funcionários, mais que tudo isso minha comunidade podia se orgulhar de ter parido aquele sorriso no rosto da garota.

Lutério ainda tentou justificar o atraso, explicar que quando ia entrando no bairro o pneu do carro furou, ele pisou numa poça de lama e ainda tropeçou numa pedra, ficando cheio de terra, contudo ela nem quis ouvir, disse que eram só “detalhes” aquilo tudo, deu-lhe um beijo apaixonado e enfim realizou o final feliz do filme que esperamos para a vida de cada um. Realmente, ela era digna da felicidade que a entregamos.

Em meio aos estilhaços, Seu Gonçalves estava agora em posição fetal, agarrado à foto de uma cachorrinha, e chorando aos soluços, gemendo, rolando pelos estilhaços, gritando:

- A minha cãozinha!!! A minha cãozinha!!!

A esposa aparece, ele tenta disfarçar, ela chega perto, ele esconde a foto da “cãozinha”, ela pede pra ver, ele diz que não tem nada, ela faz cara de mau e insiste, ele entrega a foto, como uma criança entrega um boletim cheio de notas vermelhas, ela avalia, depois:

- Mas será possível, Gonçalves! Que porra é essa?

- É a cãozinha… A cãozinha…

- Já pro quarto agora!!! Parou essa palhaçada, viu!!!

Ele passa pro quarto. Ela fica parada, olhando pra foto de uma vira-lata toda “malatanhada” (homenagem aos amigos aqui), e a contemplar o próprio marido naquela foto, com um sorriso um pouco mais severo, porém ainda com uma fagulhinha de alegria.

A sorte de uns é o azar de outros que ainda estão por vir. É assim que o mundo se equilibra nas nossas costas. O despojo das guerras somos nós mesmos, só com uma cara diferente para parecer “outro” e nos fazer pensar que tudo vai dar certo.

A velha preta das tetas grandes pega o gatinho preto, coloca no colo. Põe-se a fumar seu cachimbo e alisar o gato. Vai assim até pegar no sono…  

 

criado por Luiz de Almeida Neto    15:02 — Arquivado em: Momentâneos

7.3.09

“I SEE TREES OF GREEN, RED ROSES TOO”

Um sujeito, certa vez, disse que o mais importante que havia na vida era não perder um lugar, dentro de si mesmo, em que se encontrasse felicidade, “como se fosse um oásis no deserto”, e não, eu não sei porque usam tanto essa expressão do oásis, também uso muito. Há coisas que nos são ditas em um segundo e levam uma eternidade para nos abandonar.

E Adamastor já contava quarenta anos, e lá vou eu de novo, e agora era a hora crítica da existência de todo macho pensante, se essa expressão não for uma contradição em si mesma. Era a hora das menininhas, de reafirmar sua “masculinidade” para si mesmo, de provar que ainda tinha dentes, ainda era o predador. Nessa batida se leva uma vida inteira, Adamastor levou uma semana. Mas foi ruim, cruel.

A esposa, em casa (figura bucólica inconscientemente implícita na figura da esposa), sempre o fizera feliz, ele também sempre a fizera feliz. Mas não havia outro jeito, era a hora exata de ter um caso. Não tinha como fugir daquilo. Mas como? Será possível? É possível, e sabe por quê? Por causa dos amigos.

Corria à boca miúda que Notário andava às escondidas com Patrícia, do almoxarifado (heheheheh), e também não se passava desapercebida a troca de olhares entre Patrick e Angélica do setor de vendas. O ratão, amigo de longa data, tinha lhe confessado em meio a berros e soluços que estava saindo com uma tal de “Suíça”, ou era Lituânia (coisa estranha), “o interessante na geografia eram sempre os países baixos”, sim, ele ainda teve tempo para essa piadinha no meio da tristeza em que “estava” inebriado. E também tinha o Juan, que andava com uma fulana que, segundo ele próprio, causava alvoroço por onde passava. Era coisa de tempo, não tinha como evitar trocar uma de quarenta por duas de vinte.

Porém o triste era quando chegava, em casa, e via Catarina a cortar cebolas, a picar os tomates (ou era o contrário), e tinha uma pena de deixá-la (perdoem-me as feministas), dava um dó de vê-la tão inocente, “sem saber da minha condição de macho, que me obriga a fazer isso”, e não tinha muito o que dizer, só que tinha que dar um jeito, pois um caso aos quarenta anos era mais certo que a morte, pensava ele.

Os amigos se meteram, começaram a fazer planos e apostas. Tudo organizadozinho, do jeito que Adamastor gostava. Primeiro tinha que acabar tudo com Catarina, depois arrumar outra. Primeiro tinha que ir falar com ela. Lá vai:

- Amor, tenho que te dizer uma coisa… 

- Eu também (até agora tambÉm não sei se perdeu o acento) – retruca Catarina, inesperadamente. 

- O que é? 

- Mas fale primeiro, você não ia falar? 

- Não… Mas… Vá… Fale primeiro – fazendo as contas, imaginando que ela pode estar achando o casamento desgastado, a coisa podendo ficar mais fácil, ô raça cafajeste! 

- Eu tive um caso. 

- … – Vertigens!!! Vertigens sérias. 

- Olha… Não significou nada pra mim… 

- Mas… Como assim? Não era eu?

- Calma, amor. Foi só uma vez – Colocando as palavras com o cuidado de quem está construindo um castelo, tijolo por tijolo, até fazer conscientemente… Um otário na sala de casa (figura bucólica inconscientemente implícita na figura do marido). Ô raça diabólica.

 

Adamastor pára, pensa, organiza, mede direitinho, pra não parecer inapropriado, e desfere:

- Ele era mais novo que eu? 

- É… Um pouco… Mas nada comparado a você. Foi um erro. – Tudo medido, as palavras suavizando a paulada, de um jeito que só elas sabem fazer, “a doçura falando mais alto que a putaria” (É, amigo, eu me lembro das suas citações também), e tudo coadunando para fazer parecer melhor do que é. A mesma coisa com a conta do cartão de crédito. 

Adamastor, pensa, reflete mais um pouco. Ela pensa que vem merda por aí, ele nunca pensa muito…

- Mas amor! – o rosto dele se ilumina – Ainda bem! 

- Como assim? – Ela observa, reticente, pensa que ele vai pegar uma pá na cozinha, achatá-la o crânio, ele deve estar sendo irônico, aquele não era seu comportamento padrão, por Deus, elas controlam o mundo. 

- Ufa! Eu tô aliviado! Sério mesmo! Poxa… Parabéns! 

- … – Sem comentários pra mim tamb?m. 

- Eu pensei que ia ter que fazer isso… Mas você… Olha! Danadinha, viu! Mas você é danada mesmo! Pensa em tudo pra essa família! 

-… – Eu também estou boquiaberto. 

- Olha, eu não sei o que faria sem você. Você resolve tudo pra mim.

 

E viveram felizes para sempre. Eu disse “felizes”, como quem vê árvores e sabe que elas são só árvores, e ainda sim é feliz por ver isso.

 

Siga a música. E não, esse cantor não é astronauta e não foi o primeiro homem a pisar na lua. Mas bem que podia ter sido.

http://www.youtube.com/watch?v=vnRqYMTpXHc

 

 

 

 

 

 

 

criado por Luiz de Almeida Neto    12:38 — Arquivado em: Esporádicas

27.2.09

PITORESCO (CONTO DO ACASO À BALA PERDIDA)…

Os bichinhos que pululam uma multidão não são tão interessantes quanto aqueles que salteiam em piruetas e se destacam. Tudo que é um pouco diferente é mais atraente que a regra. A paixão pelo incomum é algo que domina nosso espírito. Todo mundo vê coisas iguais o dia inteiro, e quando há algo pitoresco é realmente intrigante. É como uma chance de notar algo que estava escondido no meio do normal. O ridículo e o risível também servem.     

Era uma manhã de quarta, por volta das onze, hora de terminar de matar o sanduíche de mortadela. Comer, digerir, trabalhar, síntese da vida. Não! Sem ideias, só comer, digerir, trabalhar. E um dia comum ia se indo muito bem, como já se esperava. Faizulim sentado, no balcão da lanchonete de Seu Jorge a deliciar o comer de todo dia, feliz por ser um dia como todos os outros. Foi quando notou algo de diferente, e a palavra que deveria estar no título era… Inusitado!

Era um assalto, os bandidos fugiam da polícia, em uma fuga louca e com troca de tiros. Tiros sem rumo, para espantar e “dar cobertura”, sabe-se lá o que isso quer dizer. Todos perceberam o barulho e ficaram apreensivos, porém não dava para sair à rua pela possibilidade de se tornar um alvo, nem para ficar ao balcão, que era acessível à mira dos beligerantes. Assim, corriam para dentro da lanchonete de Seu Jorge, com a exceção de Faizulim, que também o faria, mas demorou um segundo, e não mais que isso, para perceber do que a situação tratava. Foi apenas um tiro, um tiro vulgar e ocioso, que mudou toda a estória.

Suéliton levantou aquele dia com preguiça e indisposto, ainda da ressaca do dia anterior. Acendeu um cigarro e ficou matutando. Aquele seria seu grande dia. Os planos eram feitos com uma antecedência meticulosa e obstinada. Já sabiam quantos homens faziam a segurança do banco, e também tinham acertado previamente como seria a fuga. Tudo detalhado. Deu um gole na garrafa de cachaça que ainda estava na mesa, tinha que “pirar” para ter coragem de fazer aquilo. Assim como o palhaço, ele também não conseguia fazer seu espetáculo de “cara limpa”. “Palhaço”, pensou, com um sorriso desdenhoso.

Às dez horas da manhã o banco estaria muito movimentado. Suéliton já havia combinado com Jefferson que, de todo jeito, tinha que ser naquele horário. Era interessante usar a multidão para ajudar a causar estardalhaço. Rangel daria cobertura na entrada, enquanto Zé Pincel ficaria em um carro despretensiosamente estacionado do outro lado da rua, aguardando o momento da fuga. Foram pontuais.

Às dez em ponto estavam dentro do banco, com os seguranças rendidos e algumas dezenas de clientes em polvorosa a debandar do estabelecimento. Os poucos que restaram no recinto foram feitos reféns e agora era questão de rapidez.

- Bora, porra!!! Tem que ser rápido isso aí.

- Só um minuto. – o caixa do banco estava pálido enquanto esvaziava sua gaveta.

E assim esvaziaram os caixas todos, tudo saindo como o combinado. Hora de fugir. Quando saíram do banco… Cadê o carro de Zé Pincel? Nada. E pior: as pessoas que conseguiram fugir do local tiveram tempo de avisar à polícia, que já apontava na esquina. Hora de correr.

Seguiram de maneira instintiva pela Maciel Pinheiro, enquanto os policiais iam se aproximando de rapidamente, sem atirar por causa do grande movimento de civis na rua. Quem desferiu o primeiro tiro foi Rangel, quando já iam cruzando a Floriano Peixoto. Os policiais não retrucavam os disparos, devido aos transeuntes. A Floriano Peixoto, por sua vez, tinha um grande fluxo de carros, e, portanto, dificultava inclusive a perseguição.

Só quando já se encontravam próximos ao antigo Hotel Ouro Branco os policiais começaram a atirar. Jefferson atirava torto e nem mirava, enquanto Rangel tentava acertar, sem, contudo, conseguir muito bem divisar os alvos durante sua corrida. Suéliton estava assustado, não contava com aquilo, e ainda por cima embriagado, nem sequer disparava a arma que trazia consigo.

Quando os três chegaram próximo à lanchonete “Recanto do Sabor” Jefferson foi alvejado, nas costas, caindo imediatamente. Suéliton parou, e num relance viu Jefferson agonizando, sem saber muito bem o que fazer. Rangel era mais experiente.

- Bora, porra!!!! Tem que correr!!!

- E o Jefferson, cara?

- Deixa que a galera do mal aí pede ambulância.

- Pô, mermão!!! Nada a ver!!! Vacilão você, cara!!!

- Ah, tu que sabe!!

Rangel seguiu, um pouco mais aliviado, ciente de que provavelmente aqueles dois iam deter um pouco a atenção dos policiais. Suéliton, enfim, “pirou”, e começou a disparar a esmo, para todo lado, sem nenhuma consciência do que estava fazendo. Foi do meio desse monte de balas, que, um em especial, entrou na nossa estória.

Atingiu, em cheio, uma lousa, onde antes se lia o quadro de petiscos da lanchonete de Seu Jorge. Não sem antes raspar nos fios de cabelo de Faizulim, que almoçava sentado num banquinho, junto ao balcão. Ocorreu exatamente no momento em que ele se abaixou para dar uma mordida no sanduíche de mortadela, que deliciava na ocasião. Passou a centímetros da sua cabeça.

Faizulim ficou parado, estático, olhando para a bala incrustada na lousa, ali, bem na sua frente. Via e revia mentalmente a trajetória da bala, que mais parecia a trajetória de um mundo inteiro, novo, que, este sim, entrara na sua cabeça. Era como se fosse uma interseção com o mundo alheio, um momento de inspiração eterna. E se ele tivesse ido almoçar no horário habitual, e não mais cedo, como naquele dia? E se tivesse ido almoçar em outro local? E se tivesse pedido um hambúrguer, que demoraria mais a sair? Se não tivesse ido trabalhar naquele dia? Pior ainda: e se não tivesse dado aquela mordida no sanduíche? Os pensamentos rodavam, em uma profusão austera, e ele começa a sentir vertigens.

Enquanto isso Suéliton seguia descarregando a arma. Não conseguiu acertar ninguém e, por fim, foi atingido. Tiro no peito. A garganta começou a secar. Um gosto de sangue na boca. Como se ele estivesse inundando. Caiu abatido e calmamente, já inerte, morto. Os policiais agora dominavam a situação e seguiam em disparada no rastro do outro, que já ia longe.

Faizulim não conseguia se mexer. Estava em choque. “(…) como um rio que passou em minha vida”, e passara com força suficiente para construir uma verdadeira represa. Vivera milhões de momentos em sua vida, e nunca se detivera para pensar neles, vivia exatamente como Suéliton atirava: a esmo. E naquele instante suas vidas se encontraram, na interseção de um segundo, com a força do disparo de uma arma de fogo. Poderia ter visto sua vida com aquele olhar durante todos os dias de sua vida, mas não, só conseguira fazê-lo diante do pitoresco, diante do momento que salta da multidão de momentos que pulularam sua vida, que agora salteava em piruetas ali, na sua frente.

O pitoresco, o peculiar, o inusitado, pode atrair a nossa atenção de forma a nos causar uma impressão tão forte que podemos até chamá-lo de natural. Daquele momento em diante Faizulim tratava o incomum com familiaridade, e pensava que sua vida dependia de coisas como a mordida em um sanduíche de mortadela. 

criado por Luiz de Almeida Neto    10:48 — Arquivado em: FAIZULIM

25.2.09

O QUE SOBROU DE NÓS

Enfim, hoje, dia internacional da água de coco e do Engov, meu país comemora a virada do ano. Na verdade não comemora, é mais um lamento, combinado com a impossibilidade física de perpetuar a bebedeira, como quem diz num muxoxo: “É… Parece que não tem jeito mesmo”. E é assim que entramos em 2009, com o pé esquerdo, na ressaca da maré da nossa felicidade, que acabou ontem, no carnaval que se esvaiu.

Meu país não é igual aos outros. É diferente, bem diferente. Todos os indicadores de pesquisas internacionais encontram seu teste de fogo no relativismo que acontece aqui. Mentira, mas bem que podia ser. Os indicadores são eficientes, porém há coisas que não podem ser medidas, nas quais o brasileiro se esmera e que o diferencia do resto da humanidade.

Que outro país começa o ano dois meses após o início do próprio calendário? E não venham com essa de que isso não acontece mais. É conversa. Minha cidade estava vazia durante o mês de janeiro inteiro, com todos os serviços em estado de “preguiça”, vieram duas semanas em que parecia estar restabelecida a normalidade. Então, na semana anterior à do carnaval, começou a dúvida sobre o funcionamento das coisas novamente. Até irmos à bancarrota por mais uma semana inteira. E agora aguardamos que até segunda-feira, enfim, o ano se inicie.

Contudo, não se pode dizer que meus conterrâneos não se divirtam. Ah! Isso não! Protesto para o Brasil o posto de país mais divertido do mundo. E eu nem posso dizer que não gosto disso. A verdade é que gosto. Gosto do clima das pessoas por aqui, e não posso reclamar do desleixo vigente, já que é decorrência inata dessa diversão.

A questão é que agora precisamos catar nosso próprio lixo, o que sobrou de nós do carnaval, pra começar o ano com um pouco de coragem. Voltar a viver nas nossas cidades, nas nossas casas, com nossos empregos, nossas coisas habituais, que já nem são mais habituais a esta altura. Temos que chegar em casa, que já era algo distante nesta época, que chegar no trabalho, que agora é como que um tormento que atrapalha a folia eterna.

Voltar, e a volta pra casa é agora. Hoje perderemos a esperança de ter mais uma semana de folga, mais um dia de folia. Daqui pro fim do dia estaremos desolados, frustrados de não poder dançar mais nem uma marchinha, não poder tomar mais nem uma caipirinha quando a ressaca passar. Vai dar sede, e chatice. É aí que começa 2009 para o brasileiro.

É nesse momento em que ele faz que não é consigo, que não precisa de nada disso. Aqui ele veste uma carapaça, uma máscara de homem sério e austero, e tenta esquecer da felicidade que experimentou no seu tempo de folga emergido numa substância de “trabalho”, mas não se iludam, ele não quer trabalhar, quer folgar, vai sair de casa todo dia preguiçoso, meio contrariado, e isso ainda vai durar quase um mês. É só aí que ele é transplantado de seu ambiente de festa para um meio de normalidade, que no Brasil é tudo, menos normal. É superficial, é uma atadura na nossa cultura pra gente poder funcionar.

E, enfim, eis que o Brasil passa a usar seu grande disfarce de país comum, trabalhador e próspero, escondendo sua face vadia e malandra, que está ali, latente, esperando mais uma expectativa de feriadão, doida pra folgar a gravata, correr à praia, fugir do trabalho. Meus parabéns a quem consegue fazer esse controle, seja lá quem for, de catar o que sobrou de nós e despejar em um escritório, disfarçando de cidadãos um país em sua grande maioria composto de foliões.

criado por Luiz de Almeida Neto    11:36 — Arquivado em: Momentâneos

23.2.09

“HOJE É DIA DE BEBER COM SEU VIZINHO! COM SEU VIZINHO! COM SEU”…

Não há nada melhor que o carnaval. Quer dizer: há umas coisas melhores que o carnaval, mas de todo jeito é muito bom. Vive-se no meio das ruas, com um sorriso estampado no rosto, um monte de gente reparando em você e vice-versa, maravilhoso. Melhor que isso: beber com o vizinho.

Sim, porque hoje em dia ninguém sequer conhece os próprios vizinhos, e o carnaval chega a ser poético por causa disso. É o antagonismo patente, abusado, que incomoda a ordem e subverte nosso próprio mundo. No carnaval somos pessoas que não seremos mais por todo o resto do ano. O carnaval é a única época do ano em que você não tem que ir atrás de ninguém para beber, é só esperar, e todos vêm, sedentos.

E os mais reprimidos são os mais tentados, os sujeitos que ficam enclausurados e quietinhos saem como que de uma jaula, loucos, como crianças indo a um parque de diversões, fica aquela agonia, aquele comichão, que não pode ver uma lata de cerveja, ou uma mulata requebrando, e ainda assim é divertido. Divertido, porque você não os vê nesse estado o resto do ano, e é engraçado vê-los enrolados tentando desenrolar.

Mas os vizinhos não são perfeitos, e são muitos. Por aqui, temos muitos vizinhos insatisfeitos, favelas por sobre mansões, periferias beirando asfalto, o anticlímax do carnaval é a violência. Contudo, não é a violência invenção carnavalesca. Ela está ali nas ruas o ano todo, todo tempo em que este país toque seu bumbo. No carnaval o diferente é que nós estamos nas ruas.

O resto do ano os assaltos e as outras peripécias grotescas passam desapercebidas, e no carnaval o que ocorre é que nós estamos no meio de nossos vizinhos. Vizinhos que se encontram insatisfeitos, humilhados e marginalizados. Doidos de cana e com pouca dignidade remanescente, porém não há que se negar: são vizinhos. Certa vez um sujeito disse que se tivesse nascido na casa ao lado da sua a vida teria sido completamente diferente. “E quanto aos seus recursos pessoais?”, ouviu-se da platéia; “Até estes seriam diferentes”, sentenciou. Então não é tudo tão simples, mas o carnaval simplifica tudo.

Não importa nada disso, porque é um momento de irracionalidade, e isso é bom. Sim, porque toda nossa consciência é estabelecida sobre princípios tão mutáveis que não chega sequer a ser uma consciência, é mais uma inconsciência disfarçada. Jesus Cristo disse que não devíamos nos preocupar com nada, em amontoar recursos nem nos antecipar no amanhã, que confiássemos isso ao ser supremo, e creio que estava certo (Quem sou eu pra dizer se ele tava certo), porque não adianta. A angústia é: junto dinheiro, conhecimento, dignidade, aí vem ali na esquina uma bala perdida, um enfarto, uma coisa pior, uma topada, e quem tava certo? E se não vier nada disso? E se não tiver ninguém certo? Ainda assim vive-se nessa iminência. De que vale? É tudo tão frágil!

Apesar de fazermos tudo isso o ano inteiro, no carnaval estamos mais de acordo conosco, somos algo mais parecido com gente. Dias de confraternização, pra dizer o mínimo. Os vizinhos, os mais próximos e os mais afastados, passam a fazer parte da nossa vida por alguns dias. Passamos deliberadamente a ignorar os perigos do mundo, como fazíamos desde o primeiro Homo Sapiens, e nos tornamos tão irracionais quanto o Australopithecus, os instintos afloram e aí… Vem mais besteira. É claro, não poderia ser diferente, pois fazer bobagem, conversar bobagem… Enfim, a bobagem está no cerne da nossa existência. Nada mais significativo que uma dose de cana ou os quadris de uma morena podem ser imperativos filosóficos para nossa raça. Heheheheheh… Pra você ver que até Freud pode entrar no samba. Pode nada. Foi erro meu. Mas leve ele aí que pode ser de alguma valia. Feliz carnaval. E, por favor, não esqueçam o sal de frutas. É um saco.      

“Alala - ô - ôô - ôô…”, Sempre quis dar um grito assim. Continuo querendo. Escrever não é a mesma coisa.  

criado por Luiz de Almeida Neto    9:59 — Arquivado em: Momentâneos

15.2.09

POUCO,

Hoje Faizulim era um sujeito de seus vinte e oito anos. Formado em letras e com uma colocação em um cartório. Fazendo um trabalho meio complexo de escrivão. Desabrigado em todos os cantos em que estivesse e se provendo de alimento. Não bebia mais. Tinha largado o cigarro fazia coisa de seis meses. Solitário, comendo sanduíche de pão com mortadela na hora do almoço. Dieta mental.

Era, sim. Pensava em tudo, mas tinha que desistir. Era tudo pouco demais para chegar a um fim. Os pensamentos lhe atingiam como flashes, mas assim como o atingiam iam embora, deixando-lhe vestígios de detalhes que ele não conseguia mais explicar por ter perdido o principal. Desse modo tinha que se ater a um protocolo que um chefe de cartório lhe tinha passado, e que ele rezava igual à própria Bíblia. Era completamente avesso a todo tipo de promoção. Estava refugiado.

Refugiado de si mesmo. Perdido de tudo que amava. A mãe, pessoa que sempre fora a paixão de sua vida, já não tinha mais tempo, nem paciência para suas conversas. Sofia fugira com o mascate, ou com toda sua vida, tanto fazia. A desilusão era total. A verba não dava para produzir nem sequer um monólogo, e o pior de tudo: o pouco.

O pouco era como ele encarava sua arte. Era pouca. Não iam além de dez páginas, todas as suas idéias não duravam. Como fosse um aborto prematuro. Como se ele engravidasse de idéias, e as abortasse antes de elas lograrem êxito. Triste sina. Um sonho: ser medíocre. Ou talvez não houvesse mediocridade. Talvez aqueles que ele antes chamara de medíocres fossem, em verdade, verdadeiros gênios que descobriram o segredo da vida, que consistia em não pensar.

Sim, porque as suas idéias eram sua tortura e sua aflição era não conseguir dar cabo delas. Talvez por preguiça, talvez incompetência. Sim, competência era o que mais lhe faltava. Sem dúvida. Tudo em que empregara sua força perdera. E agora era questão de sobrevivência fazer algo inteiro, acabado, coisas que ele nunca conseguira terminar lhe assombravam. E Sofia era um fantasma que lhe atormentava nas noites solitárias. Existência soturna e caridosa consigo mesmo.

Mas tinha muito amor dentro de si. A rejeição fora seu grande mal, contudo não era daqueles que se vingavam. Era escritor, e isso não é nem uma profissão, é mais uma vida. Um escritor é antes de tudo um covarde, fica escrevendo enquanto devia estar fazendo outra coisa. Ele vê as pessoas fazerem, viverem, enquanto escreve e se preserva de um modo imbecil, atormentado e detalhista. Faizulim não era nem mesmo um escritor.

É, porque de todo jeito não conseguira sequer escrever. Desde aquele dia no cabaré, quando “descobrira a verdade”, nunca mais tinha conseguido levar um texto até mais que dez páginas. Tudo ficava pela metade, inacabado. Todos os seus textos eram ridículos, e, mesmo assim, nem eram terminados. Só projetos, projetos e mais projetos. Idéias de inícios e hipóteses que não eram desenvolvidas, suplantadas por novas idéias igualmente inacabadas. A criatividade também é um veneno quando em excesso. “Nada demais presta”, dizia sua mãe quando ele ainda era uma criança, e incrível como uma frase tão pequena pode conter tanta coisa. Existem leis imutáveis.

Era assim. Os pensamentos e a vida de Faizulim, aos vinte e oito anos, eram como uma gigante Coca-Cola que ele bebia em meio a hipóteses e que o arroto saía… Pouco.

criado por Luiz de Almeida Neto    23:58 — Arquivado em: FAIZULIM

9.2.09

ART’ …

Essa é uma estória antiga, repetitiva, que acontece nas esquinas, nas escolas, nos parques de diversão. Faizulim padecia, antes de mais nada, da sina dos que têm o nome erroneamente registrado por um tabelião indolente, depois de uma agonia extrema, que não posso descrever sem uma prévia consideração sobre sua vida.

Tudo começou com o “Violinista no Telhado”, quando ele ainda contava seus doze anos de existência, e todo um “alumbramento” decorrente daquele filme. A atração que todo o espetáculo ali imprimido exercia era uma influência maligna, pernóstica, que o levava a um lugar que ele não sabia muito bem onde ia dar. Mais tarde, aos treze, aprendeu, não sabia muito bem o porquê, que os livros eram o terreno aprazível àquela insinuação de sua alma.  

Começou com Shakespeare (Ninguém começa com Agatha Christie), e todo seu Otelo e Rei Lear, e um encantamento natural, sem saber muito bem o que o encantava, o que o impelia a ler. Qual era o chamego que sentia, o que o fazia tão próximo e apegado a tudo que lia. Passou a admirar o escritor, e a declarar-se fã inconteste, pensou inclusive em andar com uma camiseta preta com o rosto de Shakespeare, mas só havia à disposição no mercado camisas de “Che” e “Bob Marley”. De todo jeito, passou a frequentar grupos de discussão literária e de poesia (coisas bem diferentes).  

Faz-se necessário dizer aqui que se trata de uma estória de amor. Quando já ia lá pelos dezessete Faizulim encontrou, nas estradas da vida, Sofia. Paixão platônica, sinfonia de anjos, coisa inocente e tal. Tipo companheira, incentivadora dos talentos do rapaz, e musa pra alcova dos escritos do jovem. Tudo certo, receita perfeita, pensava ele então, motivos pra escrever… E foi assim que tudo começou.  

Primeira peça: “The world is (h) ours”, e o título era em inglês mesmo. Musical sobre um conto de amor passado nas ruas da Londres antiga, em meio aos ataques de Jack, o estripador, e com considerações sobre o futuro (presente) da coroa inglesa. Os atores tinham que fazer preparação física prévia de quinze dias, por conta da performance envolvida no decorrer da dança. O próprio Faizulim compusera todos os cantos e ritmos. Fiasco.  

Segunda peça: “O Último Tango em Paris”, em Paris? Sim, em Paris. Dava um toque démodé, precioso ao clima do espetáculo. Era outro musical, desta vez ambientado na dourada era moderna, na cidade-luz, e o enredo fazia menção a um casal que dançava um tango maravilhoso, sobre a mesa de uma taberna, enquanto Voltaire e Montesquieu discutiam idéias, ao fundo, estes dançando um balet performático e ousado. Terminavam todos os personagens vítimas da guilhotina, para realçar o caráter histórico. Os atores faziam um sacrifício extremo enquanto se equilibravam sobre umas mesas meio sambadas recitando o texto, às vezes até em meio a grunhidos. Fiasco.  

Terceira peça: “Fogo no Egito”, e nem preciso dizer que havia uma atriz, rebolando e insinuando a dança do ventre, que deveria representar Cleópatra. Obviamente depois vinham César (o César), e Marco Antônio e tal. Os atores tinham uma inspiração oriental e tinham que fazer uma maquiagem toda diferente para representar fielmente os “gostos egípcios”, e pronto! Pensava então Faizulim que havia feito verdadeiro compêndio teatral sobre a origem da atual sociedade, e ainda salpicado de aspectos literários totalmente modernos e inovadores. Obra para uma vida inteira. Fiasco. Fiasco retumbante! 

Tinha vinte e oito anos quando retirou do Teatro Municipal o último cartaz de propaganda referente ao “Fogo no Egito”, e estava totalmente acabado. Não sabia muito bem o que tinha feito, e era como se tivesse escrito uma grande folha em branco durante os últimos dez anos. Sentia vertigens e desprezo por si mesmo. Pela primeira vez na vida resolveu tomar um porre. Derramou-se sobre uma garrafa de rum e viu sua vida rodar, caiu em fim no chão de seu próprio apartamento, completamente embriagado e só. 

Foi na outra manhã que seu mundo desmoronou. Sofia chegou no apartamento, vindo de uma viagem de trabalho, e encontrou-o de ressaca, os olhos vermelhos e a barba por fazer, e ela sentiu, pela primeira vez em sua vida, que seu homem era um ninguém. E não há nada pior para uma mulher. Antes o tivesse encontrado no chão com uma amante, pois assim não se sentiria tão superior e continuaria apaixonada. Mas não, nem ao menos uma amante o pobre coitado tinha. Ela sentiu pena. E isso, podem acreditar, é a única coisa capaz de extinguir um amor tão duradouro.  

Ela já era então uma mulher bem resolvida, competente e organizada, uma mulher séria e correta. Fora ela quem, muitas vezes, patrocinara os espetáculos dele. Acreditava sinceramente no talento do companheiro e pensava que um dia seria um sucesso aquele prodígio. Mas naquele momento não. Naquele instante viu que talvez não houvesse mais que um bêbado, mais que uma criança que não sabia lidar direito com o mundo. A diferença entre o sucesso e o fracasso é o número de arrecadação da bilheteria. O reconhecimento dos outros é o aval do artista, e infelizmente talentos se perdem na indiferença do mundo inteiro. E agora ela também era indiferente. Perdera sua admiração, e o respeito seria coisa de dias.  

Foi assim que Faizulim viu Sofia bater a porta atrás dela e deixa-lo só. Perdia assim o patrocínio de toda uma vida, o sustento de toda uma existência que para ele já não significava muita coisa. Caiu num buraco que é maior que si mesmo, que não tem fim nem gravidade. Agora era ele sozinho, e a solidão é a pior coisa que pode acontecer para um ser humano, que é um bicho social inveterado. 

É curioso como toda a nobreza de uma pessoa se esvai na dificuldade. Se não soubéssemos falar, nem tivéssemos inventado um monte de princípios para enganar nossa própria natureza, não seríamos muito diferentes das hienas. Faizulim caiu em desgraça. “Ela fugiu com o mascate”, por Deus! Quem, nesse mundo de hoje, fugiria com um mascate? Precisaria pensar em algo mais elaborado… Não! Não tinha que elaborar nada. Não estava compondo, estava sendo composto. Não era o criador e sua vida não era uma peça. Ou talvez fosse, mas ele nunca seria mais que um figurante de um espetáculo grotesco, regido por um humor mórbido, e sem nenhum final feliz à vista. 

E assim vieram as bebedeiras, e a entrega ao próprio suplício. Anos a fio refém daquilo que ele próprio começara, movido por uma desilusão que assolava os bares da região. Mas não pense, nem o mais tranquilo dos viciados, que a escrita é algo que nos abandona. Escrever é um vício. É um jogo que você sempre vence, que faz muito bem ao ego, porque é você com você mesmo e um monte de gente pra olhar. Você induz os erros dos personagens, julga e sentencia com a última palavra. E ainda diz quando termina.  

Assim voltou toda a vontade de caneta – e – papel. Encontrava-se Faizulim em um cabaré muito mal frequentado quando veio à sua cabeça a vontade de escrever novamente. O estigma da mão que não quer parar. Mas desta vez seria diferente. Pouco lhe importava Shakespeare, Voltaire, ou até a porra de um tango que tanto lhe fizera sofrer. Desprezava a si mesmo. Podia muito bem desprezar quem quer que fosse. Fazer arte não é compor espetáculos lindos e brilhantes para contar grandes histórias, mas sim digerir a si mesmo, vomitando as próprias tripas, salpicando um pouco de orégano por cima para fazer parecer macarronada…

criado por Luiz de Almeida Neto    11:12 — Arquivado em: FAIZULIM

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