6.4.09
BILHETES
Enfim Faizulim acertara. Não se sabe exatamente qual fora sua melhor obra, ninguém nunca sabe exatamente o que é melhor mesmo. “Melhor” é todo o tipo de noção de que temos que nos livrar para sermos felizes. Longe de ser feliz, entretanto, o jovem autor era agora ao menos reconhecido.
Tudo começara quando leu aquele fatídico bilhete, instigante e moderado em termos de suspense, contudo com uma capacidade de expressão maravilhosa. Era toda a inspiração de que precisara para escrever “Pouco, Pitoresco e Confuso”, livro seu onde fazia uma reflexão sobre uma teoria da personalidade humana nos termos de ser cada exemplar desta raça pouco, atraído por coisas pitorescas, e tendo em suas conclusões lógicas uma confusão mental totalmente estranha à sua própria condição. O livro era um sucesso e Faizulim pensava que finalmente atingira um nível diferente de produção artística.
As pessoas o reconheciam, e pediam que ele fizesse dedicatórias dos exemplares que por acaso traziam consigo, a editora vez ou outra ligava instando ele a participar de eventos de divulgação do livro. Nestes eventos tudo era igualmente gratificante, pois as pessoas perguntavam coisas interessantes, que o impulsionavam a refletir sobre assuntos. Adorava partilhar todo tipo de conhecimento e ia descobrindo aos poucos que só era um escritor mesmo agora. Agora que as pessoas o liam, agora que alguém tirava suas palavras latentes do silêncio agonizante das páginas frias, trazendo tudo para o cotidiano quente a qual suas palavras, por sua própria natureza, se destinavam. Era tudo maravilhoso com relação a sua vida profissional, se é que se podia chamá-lo de profissional.
Contudo, ainda havia uma pessoa na base de tal profissional. E esta pessoa era quase que irreconciliável. Sei que a maioria das pessoas deve ter imaginado que ele padecia do sofrimento da rejeição de Sofia. Seu melhor amigo àquela época havia se tornado Rafael, e este pensava que a maior causa de tristeza de Faizulim era Sofia mesmo.
- Sei que é difícil, Fazo. Mas você tem que pensar um pouco sobre arranjar outra mulher.
- Que é que você tá falando?
- Essa estória sua com essa sua ex-namorada me preocupa um pouco. – falou cuidadosamente, Rafael.
- Não se preocupe. Está tudo mais ou menos certo. – Sentenciou friamente, enquanto tomava mais um gole de cerveja, Faizulim.
Não era. Não era nada daquilo. Não estava nem perto. Sofia era um fantasma mensal, igual à conta de luz. Faizulim era um sujeito que não se preocupava muito com a própria vida, era como se ele se importasse mais com suas idéias que com seus sentimentos. Só quando lembrava que era de carne e osso é que doía, e por isso mesmo cada vez mais queria se sentir menos carnudo. A fama relativa ajudava, e ele começava a elaborar algo para justificar sua existência, algo como uma devoção quase religiosa à arte, que na verdade era mais como uma devoção a fugir do que lhe afligia. Não se pode culpá-lo, afinal fugir é sempre melhor que resolver realmente.
Ficara mais vaidoso também, porque as mulheres começavam a reparar nele, devido ao pequeno sucesso que fazia, e ele se tornava cada vez mais hábil em lidar com aquelas que se aproximavam dele. No começo fora mais difícil. Coisas como:
- Não acredito! É você, não é? – dizia a moça bonita, com um olhar admirado.
- Bem… Isso é que é uma pergunta complicada, hein? – respondia ele com falsa humildade, querendo não ser cafajeste só porque a moça era bonita.
- Cara! Você é o FAIZULIM!!! – pela entonação que seu nome produzia nas voses, Faizulim reconhecia que esses gritinhos ficavam ainda mais estridentes.
- É. Pois é.
- Cara! Adoro todos os seus livros!!!
- Sério? – Ele se animava. – Qual deles você mais gostou? – Ele dizia, interessado, na expectativa de que ela dissesse que o melhor houvera sido a peça “Fogo no Egito”.
- P.P.C. É claro!!!! – Aquele “claro” era algo como perfurar sua alma de artista. O fato de terem reduzido seu “Pouco, Pitoresco e Confuso” a uma sigla era igualmente ignóbil para ele.
- É verdade… Mas… Qual outro que você gostou? – Pelo menos ela poderia ter lido “O Sanduíche de Mortadela de Cada Um”, já seria alguma coisa.
- …
O silêncio ainda durava mais um franzir de sobrancelhas dele, até que os dois desatassem a rir, convidados, logicamente, pelo riso dele, primeiro, reconhecendo que só havia um livro bom mesmo em seguida.
- Caramba! Você que é o Faizulim? – dizia outra mulher bonita.
- É. Pois é.
- Você podia autografar este aqui pra mim? Meu nome é Suzana – ela vinha com um livro debaixo do braço, e carregava no charme para ver se ele notava a insinuação.
- Claro! – Ele abria o livro todo “felizão” e, quando abria… Opa! O livro já estava autografado por ele mesmo, com dedicatória e tudo. – Olha… É que eu acho que já fiz até uma dedicatória nesse livro… E acho que foi… Para… Armando Flávio? – Ele olhou para ela com um olhar estranho.
- Ah, tá. – disse ela num muxoxo, como quem diz “ele não se toca”, depois catando o livro e se retirando.
Só com o tempo foi aprendendo que, conforme seu nome aparecia mais, mais as pessoas sabiam menos o que ele realmente escrevera. Seu nome ia se tornando jargão, e isso era bom para os negócios, só que as pessoas cada vez menos liam realmente. As discussões iam se tornando cada vez mais superficiais, e cada vez mais ele percebia que comentavam seu livro sem nem saber do que se tratava, com expressões vagas, considerações óbvias demais. Entretanto, ele realmente não se importava, até se divertia com isso. Não era também isso que o incomodava. Mas algo o incomodava.
Apesar disso ele ia se acostumando com todas essas novidades, aprendendo a administrar essas situações, convivendo melhor com este mundo. Uma coisa era certa: sua vaidade crescera em uma profusão tal que passara a concentrar parte de sua personalidade. Agora se vestia bem. Não usava roupas nem apertadas nem folgadas demais, porque ambas deixavam sua aparência magricela evidenciada. Preferia linhas longitudinais em suas camisas, usava um gel penteando o cabelo para um lado, e aparava o cavanhaque eximiamente, dando um ar todo elegante a seu estilo. Também não se preocupava com o fato de estar mais vaidoso, parecia quase inconsciente neste aspecto. O que realmente o incomodava eram os bilhetes.
Aquilo já durava quase um ano: toda sexta-feira à tarde ele ia até o mesmo banco de praça, e ficava inclusive ansioso, esperando que chegasse este dia, sedento e imaginando o que viria desta vez, era como se fosse dependente de uma substância que estava contida em um papel largado naquele banco traiçoeiro. Meteu a mão e viu algo como uma carta. Nem quis saber de ler o que estava escrito, e foi logo rasgando o envelope, apressadamente pegando o papel que estava dentro. Leu… Passou um tempinho e depois releu. O final dizia algo como:
“Os fantasmas de Iarne enchiam toda a mansão
Enquanto Hiberne se escondia atrás de uma estante
Apavorado, com Erich e Irlich
a brincar com palhaços mortos
na sala de estar
com o mogno liquefazendo
em chocolate meio amargo
e Ariuly acima da escada
que começava a se desfazer…”
Faizulim apertou o papel contra o peito, depois soltou um suspiro, meio aliviado, meio triste, depois imaginou o que aconteceria a Ariuly, se Iarne conseguiria salvá-la, se, enfim, tudo sairia bem. Era tão incômodo tudo aquilo para ele. Afinal de contas, ele também era um escritor, e se julgava quase um filósofo. Por que, então, uma estória imaginária, com personagens em conflitos infindáveis, sempre com um momento de tensão reprimido no fim de cada texto daquele, ainda capturava sua atenção? Por que aquela brincadeira de “amanhã eu te conto” ainda surtia efeito?
“Sua obra era muito mais elevada que aquela”, pensava ele. Seus textos eram muito mais completos, e não se utilizavam daquele recurso. Por que continuaria a ler aquilo novamente? Isso o preocupava imensamente. Precisava expressar aquilo, ou então… seu rosto se clareou por um momento.
Do outro lado da praça, uma sombra anotava as reações de Faizulim à leitura do texto em um bloquinho de notas.

criado por Luiz de Almeida Neto
22:08 — Arquivado em: 









